Raumplan

 


O arquitecto deve pensar no espaço, no cubo.

Adolf Loos de" A Minha Casa na Michaelerplatz" in escritos II 1910-1932, op. Cit.

A concepção espacial de Adolf Loos, a qual passa por uma definição ao máximo exacta dos sentimentos que cada espaço deve suscitar pela sua finalidade, reflecte-se na arquitectura que praticou através de um jogo fantástico de interiores, onde a hierarquização dos diferentes espaços é dada pelas mudanças de materiais e pelas diferentes nivelações e alturas das divisões, e de um jogo dos volumes externos com rígidas estereotomias puras, aparentando ser caixas fechadas, com recortes puros das janelas. A conjugação de espaços de distintas alturas no interior, conhecida como Raumplan, pretende sobretudo diferenciar graus de intimidade através das diferentes alturas das divisões e das suas proporções e distinguir zonas dentro da própria casa que, pela sua finalidade, adquirem assim cada uma um carácter distinto. O pensamento liberta-se nos ambientes suscitados e deles se apropria a partir dos indícios que a sua própria configuração fornece - a apropriação que fazemos dos espaços é suscitada sobretudo pela nossa cultura, pelo modo como habitamos tradicionalmente e pela memória que temos dos espaços que vivemos, factos que devem pesar sobre o projecto. Mesmo o desnivelamento térreo, o qual se vence por degraus pontuais, permite o desenho de zonas intermédias entre cada espaço, surgindo assim uma gradação nunca brusca, mas pontuada com o carácter de porta de um espaço para outro. O imbricamento entre os diferentes espaços forma a própria casa e define-a em estado depurado de volumes para o exterior, estando todos eles em correlação entre si em num todo harmónico e indivisível, onde o espaço se economiza sempre. Todo o desenho dos espaços procura a Einfuhlung{ A Teoria da Empatia foi criada por Robert Vischer e desde finais do século XIX teve um papel considerável no pensamento da arquitectura.} entre objecto e sujeito, entre espaço habitável e quem o habita, sendo pois os desníveis e diferenças de altura entre os vários espaços uma informação para a sua apropriação. O que Loos pretende com a Raumplan é não necessitar de dizer" isto é uma sala" , mas pelas suas próprias proporções e relação dentro da casa com as outras divisões, ela mesma se afirmar," eu sou uma sala" . Assim, os espaços mais pequenos produzem ambientes mais íntimos, os mais amplos introduzem o carácter de convívio, os mezaninos confluem espaços distintos e fazem-nos comunicar formando assim um terceiro espaço virtual, mescla dos dois que o constituem. A escadas são desenhadas conforme o carácter mais ou menos íntimo que têm, assumindo sempre o papel de espaço transitório e de preparação entre os que serve. A distinção entre espaços públicos, privados e semi-privados estabelece-se também assim deste modo, à custa de diferentes modulações dos espaços. E toda a casa se afirma como um todo onde cada divisão tem o seu papel e funciona em relação com as outras e onde o próprio modo de habitar da pessoa para quem se projecta influi de modo positivo no desenho da casa. A composição nunca surge assim arbitrária, ela nunca se inventa, os valores enunciados no edifício estabelecem-se segundo a sua necessidade e a arquitectura assume-se como a configuração de ideias claras já nos seus detalhes.